24.5.17

 

DE ÁRVORES E CORAÇÕES

Era mais um abril...
Outonamente,
as
   fo
      lhas
             ca
                 indo

     ocupadas
         em
      montar
    mosaicos
         no
       chão,

não viram nosso beijo
florescendo no sofá

As árvores e os corações
perdem folhas, cores, pedaços
sem perderem o destino
de serem primavera

12.8.13

 

SINAL DA MINHA CRUZ

Perdi meu pai,
Perdi meu filho,
Valei-me, Espírito Santo!

17.7.13

 

Homem à vista!

Olho pela escotilha
a curva do mundo
se aproxima
 
Onda que me leva
senóide me levou
ao ponto de encontro
 
Trago tanto aço
nessa carcaça flutuante
Agora sou só casco
 
Chega o dia
de aceitar a jornada
Navego ando
 
Sei das guerras
emolduro derrotas
navego fantasma
 
Perdi a carga
Perdi a guerra
Homem à vista!
 
Perdi o sentido
Me leva a correnteza
prá dentro de mim
 
Sem tripulação
sou capitão da nau
singrando o nada
 
Brasília, 17/07/2013
 
 

27.3.13

 
Bird´s Paradise
 
Estou precisando ter penas
molhar o bico
aprender uma dancinha
(oxalá,  Neymar não veja o vídeo) 
abrir as asas, soltar as feras
freneticamente
para atrair uma periquita
 
Eric Germano
 

31.8.12

 

SEQUELA

Sua caixa postal,
que nada postava,
sem querer,
posto que estava virulenta,
enviou digital mensagem
Meu firewall da consciência
recusou seu link:
incinerei o vírus digital
- Ficou a saudade!
 
Bsb, 31-08-2012

 

AMOR NO ÂMBAR

Meu amor
guardado
intacto
estático
não-midiático
mumificado
vítreo
fóssil
cristalizado
no Âmbar Báltico
 
Bsb, 31-08-2012

7.9.11

 

Farsa Primaveril

No Escuro
Séquido
Arenoso
Daquela terra vermelha
Que se embrenha
Nos cantos, nas ventas
No solado dos tênis
Made in China
No painel do carro
 
Eu, cigarra, espero
Minha rabeca alada, espera
O tempo, espera
Há quem viva na espera
 
Meu coração incerto
E insético e asceta
Matamorfeia
Feio alien
- Tocarei Van Hallen
 
Setembro escalda
Eu encerrado no cerrrado
Sou dependência
da espera
E a espera é destino
às vezes
Há quem more na espera...
 
E veio você incauta
fingindo ser gota
disfarçada de umidade
mentirosa água
chuva enganosa
 
Era o sinal:
Me fez sorrir!
Me fez sair,
Do berço esplêndido:
Tocarei o Hino!
 
Lá debaixo, nem sabia da noite
Cavei,
Arrastei a casca vítrea
Eclodi pronto
Enfim, o esperado
show do amor
Um voo troncho
Apressado, sem GPS
Escuro, onde está todo mundo?
 
CadêêêÊÊÊêêêÊÊÊ vOcÊÊÊêêê...?
Soltei 80 decibéis
CadêêêÊÊÊêêêÊÊÊ vOcÊÊÊêêê...?
Gritei 100 decibéis
CadêêêÊÊÊêêêÊÊÊ vOcÊÊÊêêê...?
Esgoelei 120 decibéis
 
Tomei fôlego de ar seco
 
Reza a lenda
Repetida por minha mãe
que acima disso
Explodem as cigarras
 
Silenciei a rabeca
Engoli o choro seco
Não vi flor
Não havia verde
Não vi você
Só um mar de folhas
Dispostas impressionistas
No chão
e prédios de galhos secos
 
Troquei de espera
Depois da sua farsa primaveril
Fica a secura
Foram-se as lágrimas
Esturricaram-se asas
Depois os fluídos corporais
Ficou a casca
 
Não toquei Van Hallen
nem o Hino
Não a vi
Não há vida
Há quem morra na espera
Sou a casca

31.8.11

 
LÁ FORA
 
Eu estava sozinho
sem língua
sem internet
cansado de andar
no meio do rush Babel
Entrei na Oxford Circus
vestido de ilegal
esbarrei no mundo
me enlatei
driblei apressados na escada
entrei no Ovelha e Bandeira
tomei um pressurizado
no meio dos blazers
voltei aos estábulos luxuosos
embriagado de solidão
 

27.7.11

 
ANITA
 
Anita veio
agitou, calculou,
bebeu, dançou
consertou o interfone
e foi embora
 
Levou nos olhos
o céu de Brasília,
e na mala
toda nossa festa

24.6.09

 

Brasília 50 anos

BRASÍLIA 50 ANOS

Encubram Volpi
Depredem Bulcão
Queimem Galdino
Calem Galinho
Apaguem Galeno

Matem trânsitos
Grilem o verde
Recusem Oscar
Esqueçam Renato
Asfaltem tudo

Fechem pilotis
ceguem tesourinhas
desprezem faixas
Enterrem a W3
Deflorem os Ipês

Aos 50, a cidade já tem avós!
E rugas
Alzheimer, inchaços,
problemas de circulação
Gente do século passado
como vitrais perto de cair

E gente nova chegando!
Pois Brasília, tão atacada,
precisa de uma lipoinspiração:
retirar a gordura cinza
e azulejar poesia no céu
do sonho de Dom Bosco


17.10.08

 

VER ESTRELAS

No telescópio
Do olho-no-olho
Pareces estrela:
Brilhas super-nova,
Piscas anos-luz.
Desapareces, cometa
E deixas rastros
De cósmica poeira
Nos cílios do vortex
Negro buraco
Que me traga
Prá noite silenciosa,
Pseudo-eterna do vácuo...
E num simples piscar
Big-bang, recomeço
Do olho-no-olho
No telescópio

Bsb, 16/10/2008

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11.7.08

 

DO PARALELISMO

Mas não vamos combinar nada
- a frase e a fase são suas.

Preferia estar combinando contigo,
agendas,
vontades,
estudos,
sonhos,
como já fizemos.

No fim,
chegaremos ao mesmo lugar...

segues pela L2 paralelamente,

e eu, pela W3.


10.6.08

 

Com que roupa?

Não sei se atalho, retalho
descaminho, descostura
rua sem saída, rasgos
retorno desavisado, desalinho
íngreme ladeira, desbotado
rumo incerto, desabotoado

Sigo a reta míope
sem piloto, sem plano, nem GPS
vestido de possibilidades


14.11.07

 

Sonho Resposta

Sonho Resposta

Sonhei
que se aproximou de mim
alva, mechas rubras
olhou para baixo,
não pareceu ter vertigens
Desdenhou das pedras,
derramou lágrimazul
nas águas turbulentas
Viu faíscas de sol
nas marolas
e jacarás imóveis,
a sangue frio
secando a fome ao sol
Mandei vento coçar seus ouvidos:
Ffffffffica!
Sou queda inescapável...
e paradoxo para desavisados:
nova escalada!


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28.9.07

 
M A r a c a j ú

Carla vai de táxi
E desce na praia
Zumbido do vento em MP3
Areias escalam pernas
E devolvem carícias-pegadas

A espuma das ondas
serpentina aos pés da foliã
vixxxxxxxxxxxxxxx
o sal entra na unha
que sonha uma pérola

Todo o sol, só pra ela!
Sopra o kite vento brincante
surfando morfo-nuvens 3D
Óculos escuros, mente clara
Clarividências à luz do dia

Um se deixar, deixando
desrotina na retina
Nuvens kama-sútricas
vem brincar nas pernas
abertas, portas da vida

Ah, um banho de mar
Janaína quer ter os cabelos
da cor do seu!
Mandou uma onda te buscar
que te alcança

Descansa, Rainha
O mar agora é dela
MAr acajú

Bsb, 29/9/2007



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27.9.07

 
BAD ROBOT

Tem horas que sou o Jack,
Querendo consertar tudo
Costurando minhas mazelas
Com linhas de marionetes
Que saem das minhas costas

Sou Hurley, preso a números
E insaciável, compulsivo
Devorando horas de tédio
Entre telas, divisórias,
Lâmpadas fluorescentes

Sou Sawyer, do trauma
Do tramado golpe em mim mesmo
Cabelos compridos, do contra
Da miopia, da leitura,
Da preguiça, da acidez

Sou Charlie, da banda
Do vício em ser eu mesmo
Do gosto pelas luzes
Das composições pretensiosas
Do perene adolescente

E Sayd, dos gestos torturadores
Do olhar que vê além
Que ouve o que não é dito
E que sofre para aprender
A conhecer os outros

Entre outros tantos,
Passeio nesses arquétipos
Que em mim transitam
E se digladiam
Roubando a cena

Até que eu, robô-ilha
Num mar de mesmices
Seja tragado pela tsunami
Que se avizinha...
Escutas?

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19.9.07

 
Desanuviado, te espero,
e não me desespero,
tampouco me destempero
feito feroz Quero-Quero

Todo tempo é um mero
passatempo do entrevero
Passa sempre, é sincero...
Nunca volta, é vero!

Te quis, queria, queríamos, quiséssemos, quero!

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17.2.07

 
CARNAVALESCO
Já fui índio, pirata, caveira
palhaço no basquete
corcunda na bateria
Boneco-de-Olinda
folião sem eira no Beira
Carrapato no Pacotão
surdo na Dular
frevista sem sombrinha
funcionário fantasma
camisa 10 da seleção
Esse ano, vou de cuíca,
incompreendido instrumento
Sem fantasia, desmascarado
travestido de mim mesmo
carro alegórico desgovernado
Que venha a apoteose
na overdose de gentes
meu bloco, na rua
contramão da razão
na fala ligeira de tamborins
No baile que invento,
não tem solidão de entrequadras
cerveja, anda ao lado
e baquetas procuram nas peles
até acharem o bronzeado do Samba
O to-ca-dor quer beber!
Eric Germano - 16.02.2007

13.2.07

 

Sulfúrico

Hoje acordei sulfúrico

Derreti o despertador
No primeiro grito

Os pedais do spinning
No primeiro giro

O tatame da Ioga,
No primeiro acorde da cítara
(que também esvaiu-se em comas)

Fui desintegrando...
O bom dia ensaiado do porteiro,
toquei o botão 6 do elevador,
e meu andar virou fumaça ácida
E, a ordem do dia,
na primeira fala do chefe
Algumas teclas do te_lad_

O tempo foi se carcomendo
Temendo que eu contasse com ele
Cadeira não mais havia

A concentração foi aumentando...
Corri para casa, quase desnudo
Só de olhar, eliminei o retângulo,
a meia-bola e a catedral de Niemayer

Enfiei-me num recipiente envidraçado
E dormi um sono de azedume
Esperando acordar neutro


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Cartas Náuticas

Ah, cartas náuticas!
Espalhadas sobre a mesa
Aventuras além mar
Especiarias, portos
Sabores exóticos
Devaneios com Walkírias
Ruivas
Outros saberes
Outras línguas
Sabor do vento

Muitas realizadas,
Riscadas em definitivo
Anotações, souvenirs
Pedras, sementes, peles, destilados
Besouros, dentes, escamas
Sotaques, palavras, palavrões
Adagas, pólvora, cicatrizes
Um dicionário de tormentas
Calmarias, enjôos,
Água saloba
Saudades, privações
Manchas solares

Fala Klink,
que o pior é não partir
Naufragar em terra firme

Ver o mar esmeralda,
E não prender vento às velas

Para alguns
Nem todos destinos
Podem ser escritos

Ah, cartas náuticas...


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12.2.07

 
SEJA

Não é toda foto que me rapta
não é todo quadro que me pinta
não é todo ví­deo que me capta
nem é todo drible que me finta

Não é toda orelha que me pendura
não é todo olhar que me fita
não é todo abraço que me segura
nem é todo lábio que me audita

Não é toda lábia que me leva
não é toda aula que me complica
não é todo degrau que me eleva
nem é toda lei que me aplica

Não é todo firewall que me queima
não é todo brilho que me seduz
não é todo acerto que me treina
nem é toda lí­ngua que me traduz

Não é toda espera que me atordoa
não é toda vontade que me cega
não é toda paixão que me perdoa
nem é todo beijo que me carrega

Não é,
nem é,
mas talvez,
"era uma vez..."
Seja!

Eric Germano - 11.02.2007


5.2.07

 
Tá Tudo Linda

Eita toada boa!
Tá tudo linda:

Borboleta pousa em flor
gira o sol, desalinha
ilumina nas encostas
realinha riscada pele
traço certo infinito
encontro bonito
d´agulha na maciez
desenha tez

Eita toada boa!

Carregas luz
ou é ela que impulsiona
sonhos sonhados
e vividos
emoldurados
no canvas-derme
assinatura
de ser e de brilhar!

Tá tudo linda!

Eric Germano - 05.02.2007


2.2.07

 
O Monstro do Lago Fitness,

Apesar da ciumeira autêntica que nosso artificial
Paranoá pode apresentar, e dos guitar-heroes que se
rasgam em distorções no tradicional Estúdio Lochness,
dou meu depoimento sobre o tal monstro.

Perto das seis da matina, horário de verão, ou pior,
horário de escuridão total. Após seus roncos
costumeiros, que arrepiam os moradores dos sobrados da
W3, ele se levanta, desnorteado (posto que se entoca
na Asa Sul). Cego pela escuridão da madrugada e pelo
astigmatismo-míope que carrega, se arrasta até o
banheiro, sem esbarrar nas portas - que foram
arrancadas pela sua cauda, desde sua infância.
Incomodava-o, naqueles tempos, ser o último-da-fila na
entrada da sala-de-aula. Além da Ordem e Progresso e
ordens-do-dia, tinha que aguentar a ordem de altura -
coisa do militarismo?

Finalmente no banheiro, veste as lentes-de-contato,
mesmo com os olhos fechados - uma proeza digna de um
monstro. Ao resto do espelho, só resta olhá-lo de
forma desdenhosa. Aquele aspecto não lhe causa mais
qualquer espanto. O monstro reflete no espelho e sente
o cansaço de refletir. Sua juba é um misto de
Elvis-não-morreu com Bozo com Hebe. Fios brancos
atestam a idade mônstrica. Ele não gosta de
aniversários e não se lembra do dia que nasceu. Ele
não gosta de lembrar de absolutamente nada, ainda mais
essa hora. Despenca pela escadaria deixando em cada
degrau um pedaço do pesadelo passado. O espelho fica
feliz em refletir um quadro que ele gosta.

Solta um raio infra-vermelho e arrasta as grades
herméticas da caverna - o Monstro é irremediavelmente
tecnológico e hermético. Sai rodando, pois até
monstros no DF têm quatro rodas. Escuro. Seus olhos
enxergam mal no escuro. Lembra do feijão preto,
estocado no freezer. Dadá alimentou o Monstro com
feijão-preto e broncas. Foi o Monstro que levou Dadá
ao hospital nas duas únicas vezes que Dadá foi
atendida. O Monstro não gosta de hospitais. Na
primeira, Dadá sobreviveu à cirurgia do fêmur e voltou
a andar, fazer feijão-preto e dar broncas no Monstro.
Na segunda, se afogou no próprio pulmão. O Monstro
chorou, mas só o espelho viu, sem se importar com
aquilo. Tentou fazer um poema, mas esqueceu as imagens
que criou. Monstros não fazem poesia. O estoque de
feijão-preto está no fim. O Monstro deve estar no fim
também. Ele não sabe bem de que. Ele sabe pouco.

Por isso, o Monstro deu para se preocupar com a saúde.
Chegou na academia, por volta de 06:10. Só o Monstro e
malucos (pensa ele) freqüentam academia essa hora. A
bicicleta estacionária já o esperava. O professor
manda, o Monstro executa. Pensa nas calçadas da 102
sul, onde pedalou e pedalou. O monstruoso coração do
Monstro, suporta bem o esforço. Como não carrega
sentimentos dentro, é uma máquina otimizada para
funcionamento adequado do Monstro. Terminado o passeio
estático na sala envidraçada, o Monstro carrega pesos
e puxa cabos-de-aço por roldanas, em sala ladeada por
espelhos e vaidades. O Monstro se lembra de motéis,
depois se esquece, como de costume.

O Monstro não entende porque está ali, nem o fato de
que todas as fêmeas no recinto espelhado não
aparentarem necessitar estar ali. O Monstro precisa.
Ele acha que precisa. O Monstro entende pouco de si e
do mundo a sua volta.

Vai para o alongamento. Estica tanto que deseja matar
o professor. Depois esquece disso. Volta para casa
pedalado, marombado e esticado. Bate a cabeça no
varal, no lustre, e se aproxima do freezer, ávido por
um congelado de feijão-preto...

(dedicado à Marcya Reis)

Eric Germano - 02-02-2007


16.1.07

 
2007, O ANO DO ALONGAMENTO

Pois é, o ano se inicia e aproveito para retribuir os votos de boas festas,
feliz natal e maravilhoso ano novo.

Volto rapidamente ao 2006, misturando-o à Perspectiva 2007.

Após deliciante e romântica férias na minha cidade natal, Natal - muito
banho de mar, uma Redinha, um violão, o lado romântico de Pipa
(perfeitamente acompanhado), na volta à Brasília, minha nau encalhou nos
recifes de coral-de-concreto da minha vida: o amor vazou pelo casco, minhas
costas vergaram mais que mastro em tempestade, e a calmaria empregatícia se
instalou de vez. Ali, parado, não poderia mais ficar...

Guardei o que restou do amor na gaveta - aquela que arrumo todo fim de ano.
Passei por exames, remédios, estalações em manobras quiropráticas, RPGs.
Agarrei-me aos livros que boiavam para me levar à praia do serviço público.
Descobri, enfim, que meu problema era o encurtamento: sentimental, muscular
e profissional. Ironia para um cara que sempre pareceu mais alongado que os
outros.

Para curar o encurtamento, usei sua antítese, o A-L-O-N-G-A-M-E-N-T-O.

No mar profissional, atingi uma enseada boa, com um estaleiro onde estou
consertando o casco para viagens, oxalá, transatlânticas. Tenho estudado
cartas náuticas, mapas, o uso correto da bússula e do sextante, para
aprender a usar o leme e o vento ao meu favor. Navegar é preciso, viver...
Na vida, por mais que hajam vertentes religiosas, somos sempre
marinheiros-de-primeira-(e-única)-viagem. Aprender é preciso.

Quanto ao meu arquipélago ósseo-muscular, comecei o 2007 pisando em tatâmes
e me esticando todo, rolando esteiras e erguendo pesos. Estou animado com a
volta ao esporte assistido por professores, já que a natação feita no modo
self-training me rendeu uma baita lesão na cervical. Quem sabe, termino o
ano medindo dois-metros-e-dez. Menos corcunda, já estará de bom tamanho.

Perdi o rumo total no oceano sentimental. Talvez os corcundas só sejam bem
cotados em Notre Dame... Problema de auto-estima e alguns kg a perder, o
esconder-me atrás dos livros, meu automóvel ser do milênio passado. São
várias as causas, todas desaguando na solidão. Bem verdade que a música tem
me salvado ou me levado à loucura total. Ainda não é tempo de desistir, e o
canto de alguma sereia há de tragar-me para o fundo do aquário de um novo
relacionamento que se prolongue até onde tiver que ir.

Sem mais delongas, que todos se alonguem em suas vidas e que em 2007 o mar
esteja para Peixes, Gêmeos e outros zodiacais.

03.01.2007

1.11.06

 
A BOLSA OU A VIDA

Boiando, somos peixes
Vertebralismo materno nos suporta
Quem nasceu, venceu ao menos um ciclo:
Formados em citologia aplicada
Somos a bolsa
Que sacoleja em cada degrau

O som distorce-se em tecidos
O alimento, chega-nos em tubos
Nada de luz... mas há saída
Antecipada, marcada, conforme a Lua
Somos expulsos, ou arrancados
Deixamos cicatrizes, levamos códigos
Quase decifrados, quem se importa?

Nem todos trocam a bolsa pela vida
Pois amar a bolsa é amar uma promessa
É uma dívida, hemoláctea
São medidas perdidas...
Sem afeto, não há feto
Desfeito, em hospitais clandestinos
Da bolsa ao saco-de-lixo

Por saudade da bolsa, vamos ao sono
Aos sonhos...
Acordar é brincar de renascer
E na vida, pós-bolsa
A recorrente pergunta:
Abort, Retry or Fail?

Set/2006

 
ÁGUAS DO NOVE

O ano e os monumentos voam
Perto, o dia de ser independente
As cigarras sentem o cheiro da chuva
E afinam aladas rabecas

Ensaios de temporais riscam o azul
Guarda-chuvas para prevenidos
Ensopados incautos na rua
Poças, splashes, caos automotivo

Mesmo com tamanha água
O Paranoá escoa
Nunca chegará às 700!
Inundaria a cidade inclinada?

No Tatuapé
Margarida perdeu sapato
no aguaceiro...

Em Jundiaí,
Ladeiras eram cascatas de paralelepípedos
E caravelas de papel

Em Sorocaba
Eu não sabia da aula
Quando chovia

Em Tubarão,
O rio foi ao Centro, marcou paredes
Marcou-me também

Logo, Brasília, férrica-cinzenta,
Retornarás verde
Cigarras reverterão a gravidade
Serão frutos nas árvores saciadas
Num sonoro namoro

Brasília, é Setembro!
Que venham águas
E lavem gentes
Amantes, dependentes
De ti

set/2006

5.8.06

 
DE NOVO

Quase tudo muda o tempo todo. Até eu, exímio poste ambulante cabeça-dura, às vezes meto-me numa mudança. Depois de 16 anos servindo à iniciativa privada, adentrei, após provas e reprovas, no serviço público. Virei FUNcionário Público! Abraços em Bruno,
Profeta-Guru dessa empreitada!

Cuidarei dos desasistidos ou “invisíveis” do Estado, ou melhor, dos projetos de transferência condicionada de renda. No Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, conhecido como MDS, vou fazer uma vida em 4 anos, já que o cargo é temporário. E o que nessa vida, não o é?

Engraçado... vestir o terno, usado geralmente em ocasiões especiais e nas entrevistas de emprego, comprar cêra e engraxar os sapatos, assinar umas papeladas, parar o carro próximo ao Anexo, subir uma escada, entrar na recepção e não ser barrado, pois o crachá verde de ansiedade indica passe-livre. Depois de um tempo nas asas da W3, virei Monumental...

Conhecer gentes novas, idéias novas, novas coisas a fazer. Ainda sem lugar para me sentar, e pior ainda, sem teclas para teclar, conheci chefes e colegas – e desenhos de cronogramas, o banheiro, textos esquisitos de acordos internacionais. A sensação verdadeira da primeira bicicleta, do primeiro beijo, do primeiro dia na escola... Tudo novo, quase Colombo e seu ovo, de onde nasceu esse mundo afora.

Na saída, o inacreditável pôr-do-sol, colocado ali por Niemayer e Bulcão. A quem um dia sair do bloco C da Esplanada indo em direção aos anexos, por volta das 18 horas, recomendo olhar à direita: nuvens multicores servindo de moldura para a catedral, remodelada pelas curvas do museu geodésico; a rodoviária incendiada pelo adeus solar, e a Torre de TV, como um míssil, atingindo o céu.

De novo, já tenho bons motivos para ir e voltar do trabalho!

01.08.2006

18.6.06

 
MOCHILA

Agora, na mochila
Cochilam artefatos
Pouca arte, poucos fatos
Fatalista, quase morto
Quasímodo modulante,
Modificada arquitetura
Quem atura, quem se atira
e não mira palmo adiante?

Antitese do ser
Doce de cicuta
Escuta, que já não canto
Nem santo, menos bandido
Tremido, o traço avança
Me alcança no meu abismo
E cismo nem ser comigo...

Comédia sem qualquer riso
Improviso uma saída
sofrida como uma falha
Valha-me Deus! Volto à fila
Mochila ao precipício
Meu vicio e ser só isso

17.06.2006

9.5.06

 
AUTO MÓVEL

Noite de sábado. Tambores, ganzás, baquetas, apitos e o tubo plástico de Redoxon são os passageiros do carro, que vão se aquecendo e produzindo sons familiares para mim, a cada nova curva ou buraco no asfalto. Vou na monotonia do eixinho “de baixo”, sentido sul-norte. Saio da 7 sul para tocar na 111 norte; em Brasília, dezenove horas, mas sem Voz do Brasil, pois no sábado, Brasil se cala no rádio, falando muito nas mesas dos bares.

Como um tiro, um estampido ecoa dentro do carro. Pneu furado? Novo efeito percussivo? Demorei uns segundos sem descobrir a fonte sonora. A resposta estava a meus pés. Precisamente, no pé esquerdo. Foi-se o cabo da embreagem. O pedal, sem vida, foi sugado para perto da carroceria. Como estava com a marcha engatada, decidi
tentar o retorno em forma de tesourinha que se aproximava. Certas horas, meia-volta-volver é a única opção.

No embalo do câmbio, que parecia tão favorável quanto o dólar atual, fiz a tesourinha e ensaiei a subida pela outra, que me levaria ao caminho de volta. Fiquei. Nunca fui bom em Física mesmo... Pisca alerta ligado. Outros carros, manuais e hidramáticos, não quiseram saber do meu drama. Fiquei.

Um Fusca, meio azulado, parou atrás, e ali ficou. Sinalizei, mostrando meu polegar para baixo, reflexo de como me sentia. Gritou o motorista:

- Quer que eu empurre? Estou de Fusca!

Pensei cá com meus pedais quebrados, que eu também estava num Fusca, já que Golmil era seu substituto natural. Ele desceu do carro, veio pacientemente até minha janela, e sugeriu empurrar meu Fusca, perdão, meu Golmil, tesoura acima. Os instrumentos se entreolharam, pedindo para serem salvos de tamanho
embaraço. Pensei no parachoque, que devia aguentar um outro Fusca a empurrá-lo. Quem não tem cão...

Subimos a tesourinha, devagar e divagando, segurando uma fila de impacientes, que não entendiam o que era aquele estranho comboio. Chegando ao topo, paramos um
pouco para rir e analisar a situação. Ele disse seu nome: Rafael, fotógrafo de Senador – até isso eles têm? Como um posto de gasolina estava bem próximo,
resolvemos que o procedimento de empurrar-com-o-bigode do Fusca deveria continuar. Ali seria um bom abrigo para meu avariado meio de transporte.

Lá chegando, ele se ofereceu para levar, eu e minha bagagem musical, para a Asa Norte, pois ele ia para o mesmo lado. Aos poucos, fui transferindo as coisas
para o outro veículo. Um Chevette anos 70 entra no posto, e começa a encher os pneus. Era amarelo, daqueles desbotados. Eu tive dois Chevettes: um 80,
chamado carinhosamente de “chevelho” ou "gerimum", por conta da cor, e um 92, com o qual matei um cavalo em Taguatinga.

Abrimos a tampa, e o motorista do Chevette se aproxima e pergunta o que houve. Falei da perda do pedal. Maranhão, seu nome, é mecânico em Taguá, e explicou que passa as noites de sexta e sábado dando voltas no Plano, acodindo os desesperados das pistas. Disse que tinha um cabo que serviria no meu carro. Dito o preço, e aceito sem negociação de minha parte, pois as horas brincavam de passar, saquei uma nota de cinco que Raphael - agora com “ph”, pois vi na sua carteira de jornalista - , fez trasformar em duas latas de cerveja geladíssima.

Maranhão trabalhou rápido. Secamos as latinhas. Fiz o pagamento do combinado, testei a pedaleira recuperada. O trio insólito foi desfeito. Nos despedimos como estranhos que éramos, unidos repentinamente por uma causa.

Devolvi as coisas, que pareciam felizes-para-sempre, para meu carro. Parti para a Asa Norte. Se eu fosse o Paulo Coelho, eu diria que Raphael, com “ph”, era um anjo, e que Maranhão, mesmo sem a indumentária certa, era um elfo consertador ou alguma criatura mística.

O imortal escritor, não anda mais de Fusca, como andava nos tempos do Raulzito. Raphael, só achou graça da situação, sempre enaltecendo a bravura do Fusca, não tinha asas, e o bafo de cerveja entregava sua humanidade. Maranhão, trocou conhecimento por dinheiro, como era de se esperar.

Toquei a noite quase toda, e a todos que pude, contei a história. Apesar do convite para mais uma cerveja por conta, Raphael não apareceu no bar. Será que estava a empurrar mais alguém?

Para mim, Raphael foi o bêbado mais solidário que conheci; anda em um Fusca com placa de Natal-RN, e vive de fotografar autoridades. Maranhão, mecânico-visionário, que busca as oportunidades do ganha-pão nas estradas da vida, salva muita gente todos
fins-de-semana. Sobrou para mim, nessa história, ser somente o cara de muita sorte.

Eric Germano - 8/5/2006

E para você, leitor(a) que pegou carona nesse Auto Móvel, fica o telefone do Maranhão, para alguma emergência:

Maranhão: 61 9260-9826

Do Rafhael, não peguei o contato para fotos, só a vontade de trocar meu Golmil por um Fusca, rs.

13.4.06

 
Tarde na 406 Norte

Saxofone chora na kitnete
Manchetes esquecidas varrem o asfalto
Senhor de terno vai sem rumo
Mulher repara a vida na janelavaral
Bêbado vira semáforo
Tudo pára.

Pneu arranca o fim da tarde
Ah, universitárias...
A alegria passageira na vã escolar
Dois quiques na bola de basquete
Amizade atravessa a rua
Eu paro.

No Sebo iluminado,
letras pretas esperam alforria
Espero...
Até que um visitante
Pegue o livro da minha vida
Livro-lápide onde jazem os tipos:
“Vivi, mas não tenho nada a dizer”
E, só.

27.3.06

 
EcoDoppler

Descobriram o atraso
no meu ramo direito
vai bater, não bate
bate na hora indevida
mas bate maquinalmente
erro nascido
ou ganho nas brigas do Garrafão

Sou menos direito...
como o surdo no Frevonon
descendo e subindo
ladeiras de Natal
Doutor, não sejas taxativo:
- Nada tens no coração!
E esse insistente barulho?
Dor...Dor...Dor...Dor...

24/03/2006

22.2.06

 
Guerra do Golfo

Lá vem o mocinho do Farwest
Os passos firmes, medidos
O vento voa a trezentos por hora
E o sol incendeia, carboniza

Nas telas, fossilizados
O vemos passar
Não dá tempo de sentir medo
É o galã da Paramount

Orgulho de Hollywood
Quantas fantasias e aventuras
Agora é o carrasco
Que joga a chave do calabouço fora
E suas risadas tropeçam escadas

Ele é um durão
Não chora, não recua
Não pensa.
Só espera a hora
De livrar o cinturão de suas imbecilidades

É a sétima pistola de prata
Nas mãos de um covarde
E o mexicano tomando tequila
Tem seu chapéu perfurado no chão
Nem sequer pensa em apanhá-lo...

Se estou pálido
É que ninguém acha mais bonito
A porta do salloon se abrindo
- é o princípio do duelo

Aquela ânsia
Aquele tremor
Aquela tensão
Aquele suor

E o estampido
Resvala a alma
Acaba o tudo

Eric Germano - 1990

20.10.05

 
************

ROLO

No meio da sala
tinha rolo de fita
toca-fitas de rolo
Americanas orquestras
de Miller e Dorsey
Românticos de Cuba
as maracas, a clave
coisas do pai
tão minhas
meu bongô, meus grilos
entre o dever de casa,
o Mundo Animal
e a dilacerante descoberta
do amor
em italianas canções
"Roberta... perdona... ritorna..."
Quando a encontrarei novamente
naquele asfixiante eleva-dor?

7.9.05

 
PINTANDO O SETE

Deságuo de novo
No eixo rápido
De luz âmbar

A pressa contida
Nos olhos despalpebrados
Dos pardais

A reta imposta
Dos olhos de gato
Velocímetro, vento, veia

A sucessão regressiva
Das superquadras...
Onde é o centro?

Ah, Alvorada e Buriti
Distantes das gentes...

Seus espelhos d´água
Não refletem a narcisista
Pátria Mãe

Aqui nasceu meu filho
Que não viu Cássia
No Bom Demais,
As noites no Galpão,
Nem comeu um Mafioso

80, limita o mostrador...

Sobre nossas cabeças,
aquela bandeira
trocada por Dragões
que por sorte
continua a mesma:
Um campo de futebol,
Um balão de São João,
O céu da capital,
De estrelas inegáveis

Tá bom, nem somos independentes
Mas estamos vivos para sermos

Quando via os desfiles
No Eixão
Não sabia do medo
E quem quer saber?

O desfile, mudou-se
A cidade, é outra
Eu, que nem vim para construir
Acabei concreto

17.6.05

 
***************

Cacos

Já estou de vidro novo, e a cicatriz de fios coloridos no painel ainda me causa certa raiva. Pratico agora direção silenciosa, ouvindo meus pensamentos; não sei mais das notícias, nem sempre boas, sobre o Brasil. Não posso mais mudar de estação quando algo me incomoda, mas mudo de faixa, costumeiramente, quando algum lerdo ou desocupado da vida insiste em impedir minha trajetória. Vermelhos, amarelos e verdes passando, as asas ficando para trás, onde deviam estar...

Acho que paguei 170 naquele auto-rádio-K7; gastei outros 50 no reparo do vidro. Hoje, andei de ônibus duas vezes, na ida e na volta da oficina-vidraçaria; que misteriosamente, estava vazia quando cheguei, por volta de 9:30. Trocou de dono - antes era do irmão do Lourenço, que parece-me, deixou de ser vidraça e pode ter virado pedra...

Tive uma manhã calma, aprendi algumas dicas. Andei de ônibus hidramático, cujo motorista exibiu uma pilotagem dramática. No seu headphone, devia estar tocando alguma música para dor-de-cotovelo, pois ele descontou no bólido e nos desavisados passageiros.

Depois do almoço, quando estava a estacionar, vi o lavador de carros, a quem doei um boné, para o sol cáustico desses dias frios. Engraçado, não sei o nome dele. Atrás do meu carro, parou desanimado catador de papelões, papéis e toda sorte de restos de empresas e pessoas. Figurino digno dos últimos dias da humanidade que estão por vir, grunhiu de sua boca de dentes ausentes, um pedido de vinte centavos... como a Casa da Moeda não distribui devidamente nesse desigualBrasil, e nem ouve a voz das ruas que clama por moedas não forjadas de 20 cents, vasculhei meus bolsos pelo vil metal. Ia buscar no carro, mas ter que rever a ferida no painel me fez desistir.

Acabei achando uma moeda de 1 real, aquela prata-ouro, na minha calça multi-bolsos. Ela refletiu o sol quando passada para a mão do catador, que agradeceu, desejando coisas boas para minha família. Pensei na família dele e pensei no meu expediente. O vidro foi sanado, os cacos, aspirados. O toca-fitas se foi, levando dentro de si uma fita do WES, sucesso em Camarões e raríssima nessas pairagens. A moeda se foi. Tranquei o carro. Conferi as portas, como de costume. Ficou o sorriso sofrido do catador de papéis, que agora carrego comigo, e ninguém pode roubar...

6.6.05

 
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

TRINTA E SETE

Aos 37,
Não quero mais planos...
Todos já foram feitos,
desfeitos, revistos, revisitados
arquivados, reciclados, esquecidos
E ainda estou no mesmo
eu mesmo

Em 37,
Minha grande proeza:
deixar para trás zilhôes
de espermatóides lerdos
Depois, ser viável
no ventre quente de Margarida
comer do pão de Germano
andar aos olhos de Dadá
fugir dar freiras cortadeiras de unhas
voar no velotrol veloz vida

Durante os 37,
quantas partidas de basquete
amores platônicos,
livros, discos de vinil,
coleções perdidas, empregos,
cursos e alunos,
instrumentos e palcos,
amores de verdade e
verdades de amor
modernos amores virtuais
mentiras atiradas
sim e não, aos montes
bem-quereres, mal-queridas

37,
Só um filho
que é tudo que não posso mais ser
nem seria, pois não está em mim
descobrir a vida nesse mundo novo
que todo dia inventa de existir

37, 37,
Tudo que tenho, cabe no meu Gol
moro com a Mama,
como um filho de italianos,
insistindo na solteirice
de gato escaldado,
ou no meu papel
ex-playboy classe média

37, 37, 37,
Não sou chefe
Não mando nada
Só executo e converso com telas
e dígitos mal traçados

37,
Não quero mais planos...
Mas vou tomar uma,
ou várias,
in momoriam do que passou
e do que virá!

Eis meu brinde:
Que venham mais 37!
Não estou preparado
nunca estive
E quem não aprende
o ano repete!

21.5.05

 
*****************************

Meio

Meia noite
Meio deprê
Media luz
No meio fio

Meio homem
Fruto do meio
Meias verdades
Meio pavio

Maio, é quase meio
Gol do meio de campo
Meio de dizer, é mídia
Meio seco, é estio

Caminho do meio
Meia furada
Cara metade
Meio ardil

À meio pano
À meio mastro
Meia hora
De ócio e de cio

Meio distante
Da Praia do Meio
Meia garrafa
Meio Doril

Ao meio-dia, fome
meia 4 Queijos
meia Marguerita
nesse corpanzil

Meio tanque
Meia bomba
Buraco no meio
CD ou vinil?

Meio de vida
Vidas ao meio
Meio da rua
Semáforo, frio

Meia-vida do Césio
Goiânia ao meio
O meio ambiente
O ar, o brilho, fuzil

Meia entrada
Meio-a-meio
Levou a metade
Quanto partiu...

26.4.05

 
* *

Outra Canção de Abril

Por aqui, nesses altos planos
ninguém gosta de céu cinzento
nosso mar, adoecido, de ressaca
Como pescar imagens em nuvens?

Outrossim, a seca atrapalha
transforma gramados em cinzas
que qualquer ponta de cigarro
consome no cheiro rápido de fumaça

E entre secos e molhados
os últimos de Abril escoam
motoboys voam sobre espelhos
com vestes de super-heróis do rush

A folhinha já vai virar cinza...

A maior magia desses dias
foi ouvir a locutora língua-presa
da Nacional, minha trilha desde 12
falando alforriadamente,
sem ésses sibilantes
e destravada!

Bom é viver Abril com a língua solta!

12.4.05

 
Canção de Abril

Abril ensaiou inverno de ventos
serenando suave nos edifícios
em carros, gente, apartamentos
outono, eu todo, ouvindo Vinícius

Cigarras mudas, dormem enterradas
cultivando seu amor primaveril
no silêncio das Asas paradas
na capital crisálida do Brasil

E volto para casa, reticente
no rádio, Águas-de-Março de Tom
orvalhada alma, corpo e mente

Abri ouvidos, para o outono-som
que seria verão incandescente
se fôssemos nós, dois-em-um-edredon

8.4.05

 
Mão Dupla

Hoje eu tava precisando
de um abraço silencioso
daquele que mata a saudade
e fala tudo, sem palavras

No toque surdo, dois corações
sincronizados no beat
esquecer o rush, o Bush, o ponto
aquecer as linhas das mãos

Estancar o sangramento
das horas vazias
Olhar mais do que o visível
e sair de mãos, finalmente, dadas

6.4.05

 
Hai-kaindo de saudade

Saudade me desafia
se te vejo
na fotografia

Perigando

Paixão é perigo:
minha língua,
seu umbigo

Retrato

Amar é um fato
que até cabe
num retrato

Do Amor

Como pode o amor ser cego
se vivo ao te ver?

É chamado de irracional,
e quero mais te saber?

Transpassa o peito, é punhal
e faz o coração bater?

Nem sempre pode durar,
mas sempre pode acontecer!

23.3.05

 
Pílula

Tão pesado como âncora de transatlântico
O dia se arrasta...
E trás à tona pensares subversivos
Hoje me cortei fazendo a barba,
cultivada desde sexta
A camisa tirada de cabide, estava amassada
- É a minha cara!

Amaldiçoei motoristas mórbidos,
Contei segundos comunistas em semáforos
Desacreditei os engenheiros de tráfego
Depois foram telas, teclas, caracteres sem caráter

A pressa está nas coisas, mas não no tempo
O tempo tem poderes, tem políticas,
tem possibilidades
Ainda por cima, li que os astros
estão mal posicionados, atrapalhados...
O que me resta é tomar,
urgentemente
Uma pílula do dia seguinte

22.2.05

 

FIM

Rasguei suas fotos
Num ritual desesperado
E deixei os negativos
Para serem revelados

Em outras horas, outras almas
Tento esquecer a despedida
A platéia explode em palmas
Vendo sua lágrima fria

E eu fugi pra Porto Alegre
Madrugadas blues no Van-Gogh
Ninguém me ouvia, ardia a febre
O amor vem, entorpece, morre

Ninguém entende a cena, afinal
Dois que se gostam
Morrem secos na Água Mineral

Ninguém entende a cena real
Dois que se gostam
Não ficam juntos no final

 
Brasil, dois-mil-e-tantos

No seu passado

Qualquer conversa de bar
era um perigo
Uns se venderam, por dinheiro
e sem castigo
Um de estrelas, sem luz
Era inimigo

Confronto armado

Quem não se entrega,
bate à máquina um artigo
Quem não se cala, fala rente
Ao seu ouvido
Porrada, fumaça, sumiço
Onde anda seu amigo?

Dilacerado

Desfez da gente, Brasil prá frente
País vendido
Ou ame ou deixe, entrega o ouro
Ao bandido
Tiradentes? Agora é tarde,
país falido

No seu presente

Ecoa seu voto, seu pranto, seu rock
seu grito
As caras pintadas, panelas, buzinas,
Apitos
No céu da esperança, a raiva guardada
Assusta-te o mito
Voltar às trevas? É um absurdo!
Legado maldito!

No seu futuro

Que frutos colher, que porta escolher?
Seremos maduros?
Crianças cegas, prostituídas
Com medo do escuro
Floresta deserta, falando inglês
Atrás de um muro
País delinqüente, atrasado, indecente
Escravo e burro!

3.1.05

 

Everest e o Novo Ano

Se tem uma coisa que me intriga, é o fato de que algumas pessoas vivem para escalar montanhas, onde gelo, cordas, hipoxia, barracas, sonhos, deslizamentos e ambições fazem parte do cotidiano.

Para os viciados em tal prática, seja por prazer ou profissão, o Everest é sempre o objetivo mais cobiçado. Com várias faces e opções de chegada ao cume, todas levam o ser humano ao limite de suas forças. Mas para que tanto esforço?

Dizem que na tal montanha, uma Deusa decide quem vai atingir o ponto máximo, quem vai apenas sofrer, quem vai perecer na tentativa, e até mesmo, quem nunca vai ter a chance de chegar ao menos no sopé da colossal formação rochosa. Para muitos, é apenas marketing ou turismo; para poucos é uma missão de vida, ou de morte.

Na base da gigantesca rocha está o povoado Sherpa. Devotos da Deusa, atribuem poderes mágicos e vontades humanas à montanha. São os carregadores de equipamentos e sonhos de outrem. Arriscam suas vidas como forma de ganhar o pão e garantir que seus filhos não tenham que se submeter aos caprichos dela. Os caminhos para o topo são trilhados por eles com maestria e sem o júbilo dos ocidentais; são os responsáveis por fixar as cordas e as incríveis escadas-pontes de alumínio. Além disso, ainda têm que operar as digitais câmeras para registrar os heróis ocidentais.

Por volta dos anos 50, um inglês e um Sherpa foram os primeiros a conquistar o pico. O Sherpa voltou ao povoado elevado à categoria de divindade. O inglês, fez a história, contada sempre na versão dos vencedores. Ficou claro que nenhum dos dois chegou primeiro, apesar das disputas promovidas pela imprensa e entre os povos. Um sem o outro não chegaria a lugar algum...

Cá embaixo, longe do frio e da falta de oxigênio, a cada ano renovamos nossos objetivos pessoais. Escolhemos um alvo, uma meta. Um novo emprego, um novo curso, estudar para um concurso, um novo relacionamento, um carro “do ano”, um novo corte de cabelo, aquela dieta, um novo filho. Nunca satisfeitos, nos agarramos aos nossos deuses e divindades, tentamos encontrar uns Sherpas no nosso convívio, pegamos nossas mochilas e equipamentos e vamos rumo ao nosso Everest. Conquistar faz parte da nossa natureza. Tentar algo novo e difícil, é nosso destino!

Um 2005 repleto de Paz e Bem!

17.12.04

 
Pós-fora

Só, posso ir...
Só posso ir!
Posso ir, só!
Ir só, posso?
Só? Posso ir?
Só ir... posso!
Posso.
Ir,
Ir,
Ir,
Só...

14.12.04

 
AXIOMA

Pra que toda pressa?
pra que toda posse?
punhal que atravessa
corpo que se contorce

Parem toda a festa!
Ainda que não goste.
O gole que te resta,
e a luz no frio poste

Sua vida, desgaste
piromágica disfarça
caravelas, contraste
entre ego e farsa

Os mortos, enterre
esqueça os em coma
na vida, não erre
o elementar axioma:

Veja, viva, ame, coma!
e deixe-os ir, terminais
quando amanhecer...

1.12.04

 
Robô de Marte... em Vênus

Perfeito engenho, robótico poema
de alto quiláctea, prima-obra
sussurro luminoso de super nova
estelar mapa, galáctico esquema

Venusiana, tens várias luas
vários humores, difusas marés
brilhas em anéis o que tu és
pouso a nave-mão nas costas nuas

Sou robô de marte, programado:
colher pedras, digitalizar fotografia
redescobrir um fato consumado

Aterrisei em ti, Vênus, na ousadia
de te explorar, e acabei queimado
na tua alva pele que ardia...

17.11.04

 

Ao Pé-dra-letra

Já fui ouro para tolos,
ingrediente de bruxas-fadas,
paralelepípedo em Jundiaí.
Misturado, virei tijolo,
marco-zero de mil estradas
pedra-de-toque do Dali

Derrubei um tal Golias,
incomodei no sapato de tantos,
espreitei topadas no caminho...
Do seu rim, não me repelias,
enfeitei coroas e mantos,
fiz história num moinho

Raras vezes, sou lunar,
sou pirâmide para o rei
pela ganância, sou cavada
Pétrea cláusula, insular,
vim do pó, ao pó irei,
sou a primeira a ser atirada,

Essa pedra bruta,
de granítica desenvoltura,
e que já sonhou ser rolante...
Repousa hoje em escura gruta
para escapar da loucura
de não ser um dia, amante

8.11.04

 
Poema do Ajuntamento

Queridas e queridos
Indecisas e indecisos
Mal ou bem resolvidos
Envolventes e envolvidos:

Se o assunto é festa
reunião, ajuntamento
qualquer cardápio presta
é a mais-valia do momento!

A casa da Gilka, pena, quase sem Carola
Os acompanhamentos de Ana...
os espetos de Gonzaga fazendo escola
e as pizzas deliciantes de Suzana!

O viajante Jerê, de mala pronta
A Meg ultra-super-ocupada...
não viremos barata tonta
pois nossa tchurma é da pesada!

Assino o jantar se for consenso
ou o churrasco, ou um quitute
na pizza, de fome, eu já penso
Só não vamos acabar no Beirute!

Adorei o convite, tô dentro
Nem só Juá merece medalha
Nossa turma, no mundo, é o centro
E quem é da nossa trupe não falha!



3.11.04

 
Telepoema (pelo aniversário de Andréia Gerk)

E você, grande amiga
que desbravou meio Brasil
bateu pernas
no primeiro mundo

Mudou de área, de capital,
de amores

Fez tanta gente sorrir
Com seu sorriso
de arco-íris

Deixou saudades,
marcas indeléveis
de estréias e desejos
nas almas de poucos
afortunados

Nessa data especial
perdida no meu calendário
e que nunca esqueço...

Queria brindar contigo,
falar além das micro-ondas
de celular
dar-te um macro-abraço
d e m o r a d o
e um até breve!

Eric Germano - 03-11-2004

10.9.04

 
NO ESPELHO

Textos erráticos
nuvens negras virtuais
miragens e outras vertigens
córtex dilacerado
homem das cavernas concreto

Na busca de um buraco
para enfiar minha testa de avestruz
parem o mundo!
parem as prensas!
parem a pressa!

No meio do rio, estou de pé
mas estou sem ar
sem fugas nem artifícios
emboscado, babaca dentro de mim mesmo

À beira da loucura
dos que insistem em viver
me desconheço, viro fumaça
viro risada nos corredores de mármore
escorrego nos granitos da minha mediocridade
me ajudem, oh deuses-garçóns do Beira

Ligue para os bombeiros
que meu amigo vem de helicóptero
chame o síndico, berre no interfone
sou alto-falante, vendendo eu mesmo
vou pulando do tudo ao nada
como quem tenta subir escada rolante
que insiste em descer

Às vezes, preferia ser Nosferatu,
pois foi duro me ver no espelho...

9.9.04

 
DEGUSTEMPO

Tic-tac, tic-tac
passam segundas intenções
tic-tac, tic-tac
voam minutas de poemas
tic-tac, tic-tac
passam imagens de outrora

nhac-nhac, nhac-nhac
mastigo o ventre de seus verbos
nhac-nhac, nhac-nhac
dente-a-dente, céu na boca
nhac-nhac, nhac-nhac
trituro sua carne boa

tic-nhac, tic-nhac
atrás de um momento eterno
nhac-tac, nhac-tac
água-na-boca, boca-na-boca
tic-tac, nhac-nhac
d e m o r a d a m e n t e

Eric Germano - 09-09-2004

2.9.04

 
O QUE MOVE

Ah, pernas pra que as quis...
Engatinhei no olhar de Dona Rosa,
Pulei corda com ZéHenrique,
Caminhei em busca de um Lozano.

Percorri maratonas de quadros-negros,
carreguei Jú é Marco, dois tesouros!
Acelerei, apertei o freio, na estrada da vida...

Abri caminhos para Eric e Denis,
filhos emprestados,
e para tantos anônimos.

Nessa toda locomoção,
carregou Rosa até o fim,
movida a bom-humor, bom-amor

Ah, pernas pra que as quis...
Pernas pra que as quero:

Correr atrás do neto,
correr atrás dos novos sonhos
Caminhar com Lozano,
visitar ex-alunos
Mudar de ares,
dar mil voltas ao mundo...

Mas, pernas também pedem revisão
Foram-se as safenas...
Que se vão!

O que move essas pernas
Não são quadríceps, patelas, veias
É o que vem do coração!

Eric Germano – 02/09/2004

25.11.03

 

Poema da Vendedora de Brincos

Na mesa de plástico
De casaco verde e jeans
Ela toma coragem
No líquido gelado
Para caminhar mesas
E olhares, indiferenças
Vendendo vaidades brilhantes
Para orelhas
Que não a ouvem...

11/2003

Tipo Exportação

Pô, carái, véi, fí!
Não dê mole pro azar
Que um tal de José Murphy
Vem aqui para desfilar

Não trampou essa semana
Vive sonhando com o Greencard
Limpar latrina americana
E comer bacon no jantar

Com esse sotaque calango
Tu não vai zooropizar
E por aqui tem muito santo
Disputando o mesmo altar

Vê se funda uma ONG
Pra se reabilitar
Os brazucas passam fome
No país dos Carcarás

Carcará! Pega, mata e come!

11/2003

Face à face

Tudo começa com a face...
Mas eu me lembrei
Já te vi antes
No fim da tarde
O profeta deu um passe

Tudo começa com a frase...
- O meu nome é Sidnei
Virou a cachaça, delirante
Cantou uns versos em voz forte
- O tempo manda, não se atrase!

Aquele surrado rosto
Era mais um na multidão
Dos enlouquecidos e esquecidos
Que temos dentro da gente
Como um espelho tosco

E no profeta eu me via
Pela voz dele, eu gritava
Aguardente na garganta
Que era minha
E que não embriagava

Era tudo sintonia
E ele nem ali estava
O que muito mais espanta
Eu aprendia
E ele nem falava!

06.09.2003

16.9.03

 

Beira

Pra que toda a pressa?
O que mudará no próximo minuto?
Quero te encarar
Não mude de assunto

Jogar conversa fora
Continuar aquele papo
interminável
No Beira já apagado

O vidro virou plástico
As festas sobre a mesa
E o gole rápido

Mesa invade calçada
Grito mora na quadra
Outra madrugada

Passa o tempo
E somos parte do lugar
Íntimos em cena
Irmãos de copo e alma

10.9.03

 
O que quero de você
Não posso mais ter...
O que quero enviar
Coisa alguma pode conter
O que quero te dizer
Você não vai escutar

Escuta, então, a canção no ar
É assim que vou chegar
É assim que vou aparecer
Mesmo que não me reconheça
Não se importe, nem perceba

Nas tantas horas de saudade
Agito suas mechas douradas
Disfarçado de vento vadio
Que fugiu de Laguna
Atrás de suas esmeraldas

Você não vai escutar
O que quero te dizer
Coisa alguma pode conter
O que quero enviar
Não posso mais ter...
O que quero de você.

4.8.03

 
P36, aquela de petróleo...

Às vezes, falar não posso
Às vezes, entender eu custo
Às vezes, sorrir eu engulo
Às vezes, o pulmão eu anulo

Quanto mais calo, me afundo
Quanto menos entendo, mais escuro
Quanto menos sorrio, mais retraio
Quanto mais apertado, me diluo

Por vezes, no espelho, me engano
Sou estranho, estrangeiro, intruso
Quase sempre estou inconcluso
Nota fora da pauta, desumano

Quantas vezes talhei novo plano
Tantas vezes sofri infortúnio
Na tênue linha d´água, boiando
Na espreita, irônico, o Fundo

E se, tenho que calar
tenho que custar
tenho que engolir
que anular
não entender
me retrair
apertar
me iludir
estranhar
nada concluir
planejar
falir
flutuar
cair

É porque tenho que viver,
mon ami!

22.7.03

 

ROTINA

ROTINA

Hoje, não tinha o que fazer...
acordei tarde, perdi o almoço
pulei na rede para espairecer
procurando da banana, o caroço

A tarde fugiu, vi a Leda
ledo enganando-me, sutil a noite
corri, antes que eu me perceba
pele branca sob meu açoite

Estou desempregado
sem uso
claustrofóbico em mim mesmo

não careço de acordar cedo
nem de bater o ponto
culpa dos autômatos?
A vida, não é brinquedo!

A pior das rotinas
é nada fazer!

9.12.02

 

DA CHUVA

Chovia forte,
e os pingos insistiam
em atravessar vidros
percurtindo,
lavando
respingando,
escorrendo
E eu, seco
olhando pela vidraça
do expediente.

Chovia forte,
quase inundação,
e os carros
se espremendo
escorregando,
lentos
nos trilhos
de asfalto
E eu, seco
nem via a má-sorte
dos indigentes

Chovia forte,
larguei o serviço
ao meio, o carro
num qualquer
meio-fio
Corri para o meio
da multidão
ensopada
E, eu seco
por um beijo que
lavasse minha alma
inconseqüente...

Eric Germano - 9-12-2002

29.11.02

 

ESBARRÃO

Se eu esbarrar contigo na rua
espero não colidir
como fazem mateoritos incautos
nem passar ao largo
como fazem cometas apressados...
quero ter tempo
de o tempo parar
só por um instante
o tempo bastante
de me ver no seu olhar

Se eu esbarrar contigo na rua
espero não me afogar
como se afogam os foliões
na turba frenética, em blocos
querendo o não vivido
antes das cinzas anunciadas...
Quero ser lento,
quero pairar
mudar de quadrante
negar o distante
na tua boca, desembocar


O NÃO-CONTIDO

O poeta brinca de viver Ludmila
cultiva rosa atenuada, sem espinho
e para fazer crer aquela que vacila
transformorfiza pura água em doce vinho

Não se preocupe, portanto, por tão pouco
prestidigítico, cenário, ilusionismo
sou mais mágico-poeta que louco
e abdico ao confortável conformismo

E antes extravasar, parecer transformante
orvalhante e encasulado, do que contido
tudo que for para alegrar que se cante
e o que for para encantar que seja lido!

Eric Germano – 28-11-02

22.11.02

 

SEREIA DO PLANALTO

Onde há mar,
maravilhas há!
Onde amar?
Nas ondas do mar!
Ondas sonoras,
ondas de amores
ondas de Bulcão
Onde moras?
Ondulantes cabelos
voam no terral
E a sereia
ensaia o canto
do medo, da paixão
afogamento
no êxtase abissal

22-11-2002

14.11.02

 

Questão de Referencial

Uma semana é muito
para uma mosca,
mas é pouco
para uma estrela...
e eu vou ficar moscando
enquanto espero revê-la

14-11-2002 Eric Germano

11.11.02

 

Do Espaço

O astuto Astronauta
apaixonado
pela terráquea Internauta
nem quer saber de vias lácteas
galáxias, super-novas, planetas
constelações, meteoros, cometas,
solares raios
ultra-violetas

Olha para a Terra
boiando, azulada
e sonha... com as viagens
no céu da boca
da amada

11-11-2002

11.10.02

 

Para uma bibliotecária

Sua vida
São livros descansando em estantes
Eu queria é derrubá-los, tirá-los do sono, das traças
Mudar as capas, subverter a tipografia
Bagunçar o catálogo, incendiar os índices
Escrever novamente a história
Novos fatos, inusitadas teorias
Que teriam que ser novamente e sistematicamente
Organizadas
Para que eu fizesse sentido
Na sua vida...
Bsb, 17/05/99

 

MICRÔMEGAS (permisso, Voltaire)

De pequenas sementes surgem edifícios
de madeira
e de gotículas em sprays d'água,
a corredeira
De pequenos frascos, saem aromas
e a matança
e com sutis olhares e gestos:
- A noite é uma criança!

De cultivadas ferrugens,
quebram-se jaulas e elos
E com pequeninas tentações,
alguém me disse,
derrubam-se castelos...
24.06.99

 

23.06.99

SÍNDROME DE TAMAGOCHI

Por que não me apertas, all day
se te olho da tela de aquário
ansiando um alimento, binário
Em apertadas e idéias, me viciei...

E se me penduro como virtual fantoche
em telemáticas linhas, em nylon de rede
E comigo brincas, sem matar minha sede
Do seu apertar me tornei um Tamagochi!

 
CAIA POR CIMA DE MIM

Enfim, fui desprogramado
todos os binários foram invertidos
os arquétipos viraram artigos de olaria
Estão agora expostos, marfim fraturado
Tarantulo tempestades, traços tremidos
Animando semente a ser lançada na pradaria

É, minha cara, é rara sua visão agronômica
Há solos que nos dizem muito pouco
e a fome do nascer acaba por se dissipar...
E há seres em carreira solo, tragicômica
Incompletos, cheios de ranhuras, paredes sem rebôco
Sou um deles então
caia
por cima
de mim
quando
quiser
se semear

16.06.99

 

SOBRE ÓLEOS

Tem dias que me sinto enterrado
em paredes, micros, horas, cadeiras
E apesar de estar vitrificado
cresço como o fazem as videiras

Eventualmente, um mar traiçoeiro
de invejas, ciúmes, mesquinharia
Faz de mim um pobre estrangeiro
Perco a língua, não há moradia

Às vezes o ar fica rarefeito,
o respirar não é puro instinto
Roxo assim, penso um jeito
de expulsar o ruim que sinto

Raramente, sinto-me arder
em incêndios de paixões delirantes
Mas quando não espero acontecer
Me consomem azeites escaldantes
17.06.99

 

IMPOSTO

Nada foi exigido ou foi imposto
Quem vive na cobrança, nunca ama
Tributos pagarei sem contra-gosto
Entrego-te o coração como Derrama

 

PARA UMA GATA NO MEU TELHADO DIGITAL

Numa pesquisa, binária, digital,
Achei pegadas ousadas de uma gata
De imediato, sobressalto, sofri um confisco...

Meu pensamento me trouxe afinal
Para perto de quem tão bem se retrata
- A curiosidade matou o gato! E daí? Me arrisco!

 

NOTURNOS

Quando fechaste os olhos
Me teletransportei...
Te beijei!

28.06.99

 

Nada
Nem poesia de Djavan
nem a foto do mar que vejo
Aplacam a sede instalada
Que sinto toda manhã
Se não navego no teu beijo

Tudo
Faria, sem arrependimento
Apaixonado, louco, comovido
Cometeria suaves absurdos
Para viver o exato momento:
Direi - Te amo!, em seu ouvido

15.06.99

10.10.02

 

MÚSICA VIDA MÚSICA DE ASSIS

A todo momento
Inicia-se nova melodia
Saída de unhas moldadas
No afago de aços esticados
Sibilos pinçados rasgam o ar

A todo momento
Cala-se alguma harmonia
No contraponto, cortinas fechadas
E acordes inusitados
Viram pausas, sem retornar

Tem a vida esse movimento
E alguns tiveram a sabedoria
De brincar com folhas pautadas
E palhetear em mil trinados
Deixando a alma ecoar

Mas tem sua hora o movimento
E o gran-finale chega um dia
Mas o esperto preparou as viradas:
Compôs sétimos-maiores-encarnados
E atraiu seu próprio continuar...

Eric Germano – 25.07.2000

7.10.02

 

UM DIA, DIREI-TE ADEUS

Soube tudo da tua beleza:
cada centímetro linear e cúbico
cada cheiro exalado e mágico
cada sussurro e cada grito
cada sabor de doce e ácido
cada olhar de adeus oblíquo

E eu ingênuo e lento
perdi todo o raciocínio
e vivo o tormento cálido
no mau hálito do improviso
arrancando os pentelhos
da orelha de um livro
que me deixa mais esquálido
quanto mais é lido

Nessa página, sem a pena
Peno como um varrido
Doidivanas do planalto
Procurando o perdido
Levo a vida é na valsa
Apartado da beleza
apalpada, cheirada,
ouvida, devorada

Só o adeus é meu abrigo...

2.10.02

 
VINDAS E VOLTAS

Venha quando puderes,
venha se quiseres!
Fique se puderes...
Fique se quiseres!
Fique, se tiveres que voltar!
Volte se tiveres que voltar...
Volte se quiseres!
Volte, querendo ficar.
Volte a ficar (comigo)
Fique sem voltar
Queira-me se puderes
Fixe-se se quiseres
Mas não voltes atrás!

Eric Germano 26-09-02

1.10.02

 
Conheçam o blog da minha teacher


 

A COR DA INSPIRAÇÃO

Mutante acorde
Que serpenteia nos tímpanos
E acorda mosaicos de janelas
cortando montanhas de decotes
Onde correm rios de cerveja
Juntos com Hendrix, e por todos eles

Douradas cordas que nos segurem
Pois as ondas nos levam
E trazem os amigos,
E a concordância, no fim
De que todos alí,
Naquele bar, etilizados
E enfim acordados
Viram cores inexplicáveis
que reviram indomáveis sentimentos
Derramadas, em oferta
Como gole de aguardente
Deixada para o Santo

Eric Germano 09/07/2002

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